O Norte

Nas proximidades do litoral do Mar Interior, o clima desta região de grama e pinheiros é bastante frio. À medida em que se viaja para o norte, o frio torna-se severamente mais intenso e os ventos mais fortes, à medida que a taiga vai dando lugar à tundra. O inverno dessa região é longo e cruel, e o curto verão dá à tundra tempo suficiente apenas para permitir o degelo, até que o gelo volte a cobrir tudo novamente. Mesmo no verão, esta é uma terra frígida e ventosa, onde chuvas congelantes castigam as manadas de alces, mamutes e renas, que acabam por se tornar uma visão rara no extenso deserto branco. A tundra, normalmente, abre espaço para permanentes desertos congelados que se estendem até aos pés das montanhas, mais ao norte. É dito que, no extremo Norte, além das montanhas, não há nada além de uma grande extensão de neve e vento. Mais alem, situa-se o Pólo Elemental do Ar.

A população do Norte é escassa, com cidades-estado e tribos nômades totalmente dispersas por toda extensão de terra e neve. As civilizações do Norte concentraram-se em aglomerados, lentamente reunindo-se em volta de posições defensivas, que podem lhes prover comida e abrigo. As tribos nômades de andarilhos do gelo varrem as planícies em um constante banho de morte e fome, uma vez que seus bandos tendem a procurar guerra e pilhagem por onde passam. Guerras em cidades-estado são raras, devido à dificuldade em manter um exército, dada a escassez de suprimentos do Norte. É mais fácil subornar as tribos para fazer o serviço, e, depois, catar o que eles deixarem para traz.

Quando a Primeira Era chegou ao fim, e as maravilhas construídas pelos Solares se deterioraram, muitas das glórias do Norte caíram juntamente com eles. Veículos que transportavam viajantes por centenas de milhas em questão de horas não duraram muito, e os jardins encantados que produziam intermináveis frutos para as cidades famintas também não duraram. Enquanto que algumas das estradas Solares persistem, como a estrada de Whitewall, muitas outras foram destruídas por forças inimigas ou caíram pelo desgaste do tempo. Com isso, ou as cidades trancavam-se tentando sobreviver, ou acabavam perdendo-se na neve, com os andarilhos do gelo pilhando suas carcaças.

Incontáveis reinos minúsculos e cidades-estado preenchem as costas do Mar Interior e, mais ao norte, do Mar Branco. As áreas mais ao sul são fantoches tributários do Reino. Algumas são regidas por famílias de herdeiros imperiais, como a cidade-estado de Cherak, sob o domínio de uma família de patrícios chamada Jerem, mas as cidades, à medida que se caminha mais ao norte, tornam-se progressivamente mais independentes. Estados do Norte costumam ser muito rústicos, normalmente liderados por um homem forte, apoiado por um grupo de capangas armados com espadas e machados. Apenas Whitewall, a Liga Haslante e Gethamane são reais estados de poder considerável. No pobre espaço entre os mares, reinos reduzem-se a cidades, e cidades-estado a vilas isoladas, com as pessoas reunindo-se para formar uma rústica e improvisada democracia.
Caça e coleta são leis, e pastores de alces e mamutes unem-se para seguir a antecipada migração dos bandos do leste ao oeste e de volta. Exilados do resto da Criação costumam esconder-se no Norte, encontrando asilo em manses perigosas demais para o Reino reclamar, em regiões severas demais para outros sobreviverem e em lugares ocultos demais para algum homem já ter colocado os pés.

O típico nórdico possui pele muito clara e seus cabelos variam em tons de loiro escuros ou brilhantes. Devido às condições extremas, o povo é predominantemente robusto e vigoroso, de porte alto e pesado. Mesmo nas cidades, os nórdicos costumam fazer oferendas primariamente a seus cultos ancestrais e aos espíritos negros da neve, do frio e da fome. Pastores e caçadores oferecem sacrifícios aos espíritos animais dos rebanhos e aos espíritos da caça, respectivamente, mas a maioria das devoções vai para os fantasmas dos mortos. Em troca, seus espíritos ancestrais os protegem e os guiam pela neve intrafegável, desviando espíritos malignos e possíveis perigos, como pragas e nevascas. Montes sepulcros e cemitérios são protegidos pelos mais hábeis guerreiros da tribo. Os capitães são enterrados com suas armas a fim de usá-las no Submundo, e animais são sacrificados para servirem como seus rebanhos. Apesar de dois Senhores da Morte — a Amante Trajada em Vestes de Lágrimas e o Bispo do Incensador Calcedônio — terem seus covis nas terras do Norte, as tribos que prestam o devido respeito a seus ancestrais tendem a desprezar os cultos Abissais.

Não há costumes fixos para casamentos no Norte. A vida é difícil, e se o fantasma de um ancestral não demonstrar nenhum sinal de desaprovação, o casamento é abençoado e merecedor de prosperidade. Devido à falta de comida e de recursos excedentes, os nórdicos tradicionalmente abandonam crianças indesejadas ou deformadas.

Vagando pelo Norte, há os andarilhos do gelo, que são bandos de caçadores nômades e pastores que seguem vastos bandos de mamutes, alces e renas, da viçosa taiga até às montanhas congeladas mais ao norte. Eles viajam continuamente por todo ano, andando, esquiando e usando os animais domados do rebanho como montaria ou animais de carga. Durante os meses mais quentes, os andarilhos do gelo vivem em cabanas rústicas, feitas de
emaranhados de madeira talhada e estruturas de marfim cobertas com peles. Quando o frio começa a aumentar, eles cobrem as cabanas com camadas de gelo, criando acampamentos temporários que podem ser confundidos como parte da paisagem.

Cada tribo de andarilhos do gelo segue um tipo de animal em particular. Alguns seguem a migração dos alces ou renas, enquanto outros acompanham os vastos bandos de mamutes. Cada grupo respeita seu animal escolhido como um totem e fonte de sua identidade, venerando e se identificando com os espíritos daquele bando. Todos aqueles que seguem um mesmo espírito são irmãos e apoiarão uns aos outros em épocas de fome e guerra. Aqueles que seguem diferentes espíritos consideram-se familiares em épocas de prosperidade, mas serão ferozes rivais quando o bando passar necessidades e o inclemente inverno despejar suas pesadas camadas de neve nas planícies do Norte.

Os andarilhos do gelo são perigosos e incivilizados. Eles vêem os habitantes de cidades e vilarejos com pena e desdém, e atacam as cidades que encontram no caminho de suas rotas migratórias, quando acham que é necessário. Esses ataques costumam ser evitados com “oferendas espontâneas de presentes,” o que se tornou uma aceitável forma de tributos em muitos lugares. O maior tabu entre os andarilhos do gelo é o canibalismo, e qualquer um entre eles que seja considerado culpado de tal feito é condenado a uma morte lenta e agonizante. Eles estendem sua repulsa a tudo que não seja totalmente humano — bárbaros da Wyld, homens-fera, Fair Folk, cavaleiros da morte e mortos-vivos — e irão até mesmo desviar de seu caminho habitual para matar tais criaturas. Esta é a verdadeira virtude dos andarilhos do gelo, aos olhos dos estados nórdicos: eles são uma conveniente barreira contra as piores coisas que espreitam as noites do Norte.

Por incontáveis anos, foi profetizado que, em algum dia, um grande guerreiro entre os andarilhos do gelo surgiria para unificar todas as tribos e seguiria adiante para conquistar todo o Norte. Alguns temem que a profecia tenha se cumprido com o surgimento do misterioso Búfalo do Norte, um líder andarilho do gelo que surgiu há uma década e vem
reunindo seguidores entre diferentes tribos de andarilhos do gelo. Tanto a Oligarquia Haslanti quanto os senhores de Gethamane oferecem grandes recompensas para qualquer espião disposto a coletar informações sobre o Búfalo do Norte e seus planos.

Abaixo da costa noroeste em direção ao oeste, o Mar Branco é totalmente água, com o mar aberto quebrando entre o gelo. Corvos marinhos caçam para acima e abaixo na costa entre as vilas de pescadores e pequenas cidades, onde os marinheiros usam longos navios para caçar orcas e baleias brancas, e onde mergulhadores usam golfinhos treinados para resgatar do leito do mar fragmentos de tesouros da Primeira Era. É dito que uma cidade ao longo da costa, Liriel-Anneth, guarda um conjunto inteiro de artefatos da Primeira Era, mas é cheia de sombras durante o dia e de cobras à noite, e nenhum homem, em sã consciência, ancoraria em suas docas.

O Norte

Crônicas de Exalted alyssonlago alyssonlago